Ao contrário de em algumas outras profissões, na Engenharia os profissionais tentam tornar as coisas fáceis e acessíveis para os clientes/consumidores. Há muita informação disponível e isso é bom para todos. Até os produtos e serviços são feitos a pensar no utilizador: o mais simples e intuitivos possível.
Por isso é que já temos pessoas no mercado da Informática sem formação superior, apenas com autoformação. E não penso que seja por isso que são piores. Costumo dizer que prefiro uma pessoa sem formação superior (formal), mas com interesse genuíno e motivação, do que uma pessoa com “canudo”, mas sem interesse no trabalho.
Penso que vale bem mais a motivação pessoal do que os “canudos”, a síndrome do canudo é um grande mal que a sociedade portuguesa deve eliminar (associada à subserviência do “senhor doutor”).
Mas isto faz com que haja “engenheiros”(*) a 10 €/h e o resultado disso é o acesso para (quase) todos a uma quantidade de tecnologia (hardware e software) literalmente milhões de vezes mais poderosa do que há cinquenta anos.
As profissões reguladas por uma ordem (medicina, advocacia, etc.), onde os profissionais se pagam a 100 €/h, evoluíram muito pouco desde há 50 anos. Não estou a falar na investigação por trás da Medicina, pois essa é feita por investigadores/engenheiros pagos a 10 €/h...
Uma pessoa na sociedade atual tem “medo” de recorrer a um advogado ou médico, porque sabe que lhe está a pagar uma ordem de grandeza acima do que aufere e não tem quaisquer garantias de qualidade do serviço. Por outro lado, ninguém tem medo de ir comprar um smartphone a uma loja, ou subscrever uma app online. Já para não falar na quantidade de software livre e gratuito que existe. (Compare-se com o mercado pro bono de médicos e advogados...)
Por isso eu costumo chamar profissão liberalizada à dos "engenheiros". Liberalizada porque está no mercado liberalizado. As profissões reguladas pelas Ordens não estão reguladas pelo mercado, os valores são mantidos artificialmente altos. Eu não defendo o Capitalismo, mas isto não é Capitalismo. Não há mercado a regular-se, são artificialmente criadas condições para beneficiarem/protegerem os respetivos profissionais.
A meu ver o que faz falta não é ter "engenheiros" a 100 €/h, limitar os numerus clausus dos cursos protegidos (como fazem propositadamente nas universidades) ou ter barreiras no acesso à profissão (entrada na Ordem), mas sim ter médicos a 10 €/h e advogados a 10 €/h.
Aí é que iríamos ver a sociedade evoluir no campo da Justiça e da Saúde. Enquanto esta artificialidade interessar aos que lá estão será difícil acabar com ela. Mas quando isso acontecer iremos ter sem dúvida uma sociedade mais livre.
(*) Escrevo entre aspas, pois sem se estar inscrito na Ordem dos Engenheiros não se pode usar o título nem exercer a profissão, legalmente, segundo apurei exaustivamente junto da Ordem e da Provedoria de Justiça. E há milhares de “engenheiros” em Portugal que fazem o Mundo andar e avançar...
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